Ontem um rapaz de 19 aninhos perguntou para mim, reles mortal, o que dar para a sua namorada de 17 de presente no Natal. Eles estão juntos a um tempinho considerável (para a idade dele e para a frequência com a qual troca de namorada, 6 meses pode ser entendido como 15 anos).

Como eu não a conheço muito bem e ele não tinha nenhuma idéia do que comprar, pedi para que ele a descrevesse em 4 palavras (desde que não fosse, nenhuma delas,  “linda“, “gostosa“, “magra” e “boa-de-cama“).

E ele não conseguiu.
Ele não conseguiu descrever a pessoa que ama em 4 palavras.

Minha cabeça é cheia de palavras para definir a pessoa que eu amo. Sei tudo o que ele é e que me faria bem. Sei as características dele que não me agradam 100% mas que eu seria capaz de relevar. Se essas palavras seriam as mesmas que qualquer outra pessoa usaria para descrevê-lo ou se essas características só existem no meu cérebro inundado por hormônios, não está em discussão aqui.

O que motivou esse post é que me peguei pensando nas palavras que as pessoas usariam para ME definir. Mais uma vez, não valeria aqui nenhuma das palavras como “feia”, “bonita”, “gorda”, “cabeluda”… Meu físico não entra em questão (quem o carrega sou eu, afinal de contas).

Acho que alguns diriam “inteligente“, depois de conversar comigo algum assunto sério. Outros poderiam dizer “burra“, quando tivessem acesso ao meu boletim na faculdade… Uns diriam “extrovertida” me vendo cantar alto, dar risada com amigos, fazer careta…  Outros de “caipira” ao me ver corar para pedir um kg de carne no mercado.

Com certeza quem me olhasse no meu carro, no meu emprego, cursando minha faculdade, diria “responsável“, “forte“, “independente“. Tanta certeza quando os que me vissem chorar no meio do expediente com a cabeça doendo de tanto pensar, dormindo abraçada com uma centopéia de pelúcia e conversando com o cachorro diriam “infantil“, “mimada“, “fraca“.

Para os que me vêem conversando com amigos homens, beijando e abraçando com todo o respeito e amor, sou “fácil“, “vagabunda“. Para os outros, que me encontram com o mesmo respeito e amor com as minhas amigas gays, eu sou a “lésbica“.

Embora a gente bata no peito para dizer que “falem bem, falem mal, mas falem de mim”, incomoda, pelo menos a mim, a tendência que as pessoas tem de encaixar as outras em rótulos. Porque essas imagens que cada um, da forma que querem, fazem de mim, ajudam a me fazer solitária, carente e cada dia que passa mais desanimada com essa vida…

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