Passeando pelo centro da cidade, aproveitando os 15 dias de férias, entrei numa dessas lojas de departamento, certa que o simples ato de fazer compras e detonar o meu cartão de crédito me tiraria da depressão e da tristeza que me consome nos últimos dias.
Assim que entrei, ví uma bota linda, uma calça jeans que aparentemente tinha o meu número e um sobretudo jeans que eu paquero a anos. Parecia que sorte ia mudar.

E a certeza dessa mudança chegou quando a atendente se aproximou. Parecia uma visão, sim, uma enviada dos céus para me tirar de todo esse sofrimento, com seu sorriso calculado e sua camiseta:

Meu Deus! Era tudo o que eu precisava, enfim!! Alguém disposto a me ajudar e eu nem precisaria pedir ajuda (isso pode ser humilhante)…
Olhei bem para aqueles olhos, que pareciam ávidos para qualquer tipo de resposta minha e disse:
-SIM!! SIM!! VOCÊ PODE ME AJUDAR QUERIDA!!!

Ela pareceu ficar ainda mais feliz, anotou as minhas medidas, o tamanho de calça, blusa, meia calça, calcinha e sutiã que eu uso e fomos derrubar araras e mais araras de roupas.
Enquanto eu experimentava, tirava e colocava as roupas, ia contando para ela todo o meu sofrimento, tudo aquilo que estava me deixando louca, todos os meus problemas. Incrível que eu tinha a impressão de que falava sozinha, tamanho o silêncio dentro daquele provador e agora, pensando um pouco melhor, lembro de ouvir algumas risadinhas durante o meu relato emocionado. Acho que eram risos de júbilo e gozo da atendente, por estar ajudando alguém. Que alma iluminada!!

Tudo o que eu provava ela me dizia que tinha ficado lindo, a calça emagrecia, o sutiã levantava os peitos, a calcinha combinada com a calça me deixavam com uma bunda linda e como é que eu vivi até hoje sem aquele sobretudo que era o último grito da moda?

Levei tudo, fui comprando, comprando, estourando o meu limite de crédito, acabando com o dinheiro reservado para pagar o carro, o amassado no porta malas que eu fiz quando bati, com o dinheiro que eu tinha separado para viajar, mas valia a pena! A minha mais nova e fiel amiga me falava o quanto eu estava linda e que com essas novas roupas todo mundo ia me amar, os homens não resistiriam ao meu charme (fiquei em dúvida se eles agiriam assim quando eu não estivesse usando as roupas novas, mas fiquei com medo de perguntar e magoar a minha amiga nova), eu teria uma promoção no emprego, conheceria pessoas novas e que me amariam, ELAS ME AMARIAM, ENFIM!!!!

Saí da loja com sacolas e mais sacolas, me sentindo tão feliz, tão plena!
Chegando em casa, fui correndo para o meu quarto colocar as roupas e fazer um mini-desfile para as pessoas na sala de casa, para que experimentasse neles as reações que a minha amiga disse que eu causaria.
Estranhamente, a calça não ficou assim tão boa no espelho de casa. Parecia marcar umas gordurinhas extras, no espelho da loja não tinha ficado assim… Mas tudo bem, sorriso na cara! As pessoas vão me amar!
Vesti o sobretudo, ele não fechou o botão perto da barriga.. Hum… Será que isso era ego inflado? (risos desesperados). A bota estava um pouco apertada, eu nunca conseguiria andar com aquela altura de salto agulha, sem chance!

Comecei a sentir uma fisgada de dor… Ela mentira para mim.
Tentando dar a volta por cima, saí rebolando do quarto, entrei na sala jogando o cabelão e falando, confiante:
“- E AE, PESSOAS? SE APAIXONEM POR MIM!”
Realmente, eles reagiram bem. Super bem. Ficaram felizes, eu percebi. Risos descontrolados explodiram na sala, meu tio quase caiu da cadeira, minha mãe teve cãimbra no abdômen e até mesmo a poodle parecia gargalhar me olhando com sua indiferença sonolenta.
Quando os risos não mais cessaram eu percebi que alguma coisa estava errada. Eles não riam PARA MIM. Eles riam DE MIM.

E essa foi a primeira vez que o simples ato de fazer compras não me tirou da depressão.
De volta para o pijama e para a cama, que no final das contas, é lugar quente.

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